eu comprava cigarros pensando na hora em que ela chegaria. a qualquer momento, ela chegaria. eu olhava a praia sem pressa. os instantes sempre me assustaram na iminência de acontecer.
eu jamais poderia supor o instante prestes a surgir enquanto eu a esperava. aquele rapaz de tantos anos atrás, tão vizinho à coleção dos meus sonhos despedaçados, vinha caminhando em minha direção. estávamos do lado oposto da praia e o vento me doía os olhos. o sorriso disfarçado dele me doeu os olhos. fingi não prestar atenção àquela presença errante, ao sorriso de quem - eu tinha certeza - havia me visto e também era capaz de se lembrar de tudo. não houve o exaspero do encontro de olhos. não poderia. eu observei suas pernas. observei que os cabelos continuavam os mesmos. talvez fosse o mesmo par de tênis, mas não tinha mais importância. e eu me senti pequena - exatamente como me sentia a cada vez que não podíamos dizer nada.
os instantes têm uma sucessão irônica. ele continuou a caminhar no mesmo ritmo, eu fiquei prostrada. mas não era por ele que eu esperava e talvez aí esteja toda a estranheza do acaso.
ela esperou que o trânsito parasse e atravessou a rua. veio direto a mim, de braços abertos e sorria. esqueci-me de tudo por três segundos. esqueci-me do blues e da alma ao diabo.
não era mais o cinza e o dia dava espaço ao negro da noite.
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8 comentários:
Porra, vai ser escritora!
adorei!
alias, eu pago pau pra tudo que vc escreve...
hUIHAuiahauiHA
=*
Ele era o Diabo!
Muito bom,
surpresas! Adoro surpresas.
--
scald
Muito lindo, amiga!
EU já conhecia esse texto!
Parabéns pelo seu taleto que está se aprimorando cada vez mais! QUero ver um romance, hein!
:**********************
gostei, ana... espero ler mais coisas suas. ;*
Humm...
Gostinho de quero mais... Aposto no romance tb.
bjos
é meu.
Gosto desse papo de dar espaço ao negro!
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